Fim da escala 6×1 mobiliza setor produtivo em “missão impossível” para barrar a mudança (Italia)

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A preocupação ganhou força após o adiamento da votação da PEC em razão de um pedido de vista na Câmara dos Deputados, movimento que abriu uma nova janela para articulações políticas e empresariais. Embora o avanço da proposta tenha forte apoio de centrais sindicais e de parlamentares alinhados à pauta trabalhista, representantes do setor produtivo avaliam que o cenário econômico atual não oferece condições para uma mudança dessa magnitude sem impactos relevantes sobre custos e competitividade.

Para André

Matos, CEO da MA7 Negócios, a alteração da jornada representa um desafio particularmente complexo para atividades que exigem operação contínua. Segundo ele, segmentos como varejo, logística e serviços teriam de absorver um aumento direto dos custos trabalhistas sem que houvesse, necessariamente, um ganho proporcional de produtividade. “A PEC que extingue a escala 6×1 vai a votação na Câmara e o impacto potencial sobre o ambiente de negócios é real e mensurável. Para setores intensivos em mão de obra com funcionamento contínuo, como varejo, logística e serviços, a mudança representa aumento direto do custo por hora trabalhada sem ganho proporcional de produtividade”, afirmou Matos.

Os argumentos apresentados pelo mercado têm como base um problema histórico da economia brasileira. Dados citados pelo executivo indicam que a redução da jornada para 40 horas semanais exigiria crescimento médio da produtividade de 1,4% ao ano para evitar impactos negativos sobre o Produto Interno Bruto. O número contrasta com a evolução observada nas últimas décadas, quando a produtividade brasileira avançou, em média, apenas 0,2% ao ano.

Na avaliação de Peterson Rizzo, head de Relações com Investidores da Multiplike, a medida pode gerar uma combinação de aumento de custos, pressão sobre margens corporativas e efeitos indiretos sobre inflação e crescimento econômico. “A possível redução da jornada sem ajuste salarial aumenta diretamente o custo da hora trabalhada e pressiona margens, sobretudo em setores intensivos em mão de obra. Estudos apontam impactos relevantes, com alta na folha, o que força empresas a repassar preços, rever contratações ou desacelerar investimento”, disse. Segundo ele, sem avanços consistentes de produtividade,



o País pode enfrentar um choque de oferta capaz de elevar preços e reduzir o potencial de crescimento da economia.

O receio também alcança o mercado financeiro.

Sidney

Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, afirma que investidores acompanham o tema porque seus efeitos potenciais ultrapassam o campo trabalhista e atingem diretamente indicadores de produtividade, inflação e rentabilidade empresarial. “A discussão segue no radar do mercado porque seu impacto potencial vai muito além da agenda trabalhista e atinge diretamente produtividade, estrutura de custos e dinâmica inflacionária, especialmente em setores intensivos em mão de obra listados em Bolsa”, afirmou Lima. Para ele, a elevação da rigidez operacional tende a pressionar margens e aumentar a seletividade dos investidores em relação aos setores mais expostos ao custo laboral. Outra preocupação recorrente é o possível impacto sobre o emprego formal.

Parte dos especialistas ouvidos pelo setor produtivo argumenta que o aumento estrutural dos custos pode estimular a informalidade em determinados segmentos econômicos. Na visão dos críticos da proposta, esse movimento poderia comprometer parte dos avanços observados desde a reforma trabalhista de 2017. A discussão também chegou ao universo do crédito.

Gustavo

Assis, CEO da Asset Bank, avalia que a mudança pode afetar diretamente o capital de giro das empresas, especialmente em um ambiente ainda marcado por juros elevados. “O possível fim da escala 6×1 precisa ser analisado pelo efeito sobre capital de giro e previsibilidade financeira das empresas. Em um contesto de juros ainda elevados, qualquer aumento estrutural de custo reduz espaço para investimento, encurta o caixa e aumenta a necessidade de crédito”, afirmou.

Segundo

Assis, companhias com margens reduzidas e alta dependência de mão de obra poderão enfrentar maior demanda por liquidez justamente em um momento de crédito mais seletivo. No mercado de capitais, o debate já começa a influenciar análises de valuation. A avaliação predominante é que empresas mais automatizadas e com maior capacidade de ganho de eficiência tendem a enfrentar melhor uma eventual redução da jornada.

Para João Kepler, CEO da Equity Group, a discussão evidencia um desafio estrutural mais profundo da economia brasileira. “O debate sobre a escala 6×1 deixou de ser apenas uma discussão trabalhista e passou a tocar um ponto central da economia brasileira, a baixa produtividade. Se a redução da jornada avançar sem uma contrapartida clara em eficiência, tecnologia e reorganização operacional, o impacto tende a aparecer na estrutura de custos das empresas e na capacidade de crescer sem perder margem”, garantiu.

Já Edgar

Araújo, CEO da Azumi Investimentos, avalia que os reflexos podem atingir o mercado de crédito privado e a dinâmica inflacionária do País. “Se a mudança vier sem transição adequada ou sem ganho real de produtividade, parte das empresas pode reagir com repasse de preços, postergação de investimentos, maior automação ou redução do ritmo de contratação. No cenário macro, o risco é que a medida pressione justamente a inflação de serviços, que já costuma ser mais resistente, e reduza o crescimento potencial ao elevar o custo de produzir no Brasil”, destacou. A percepção é compartilhada por Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações.

Segundo ele, a proposta poderá alterar a forma como investidores avaliam riscos corporativos. “Para o investidor, a discussão sobre o fim da escala 6×1 deve ser vista como uma mudança na matriz de risco das empresas brasileiras. O impacto não está apenas no custo trabalhista, mas na combinação entre margem, produtividade, inflação e alocação de capital”, disse. Na sua avaliação, empresas mais automatizadas e com maior capacidade de repasse de preços tendem a enfrentar melhor o novo cenário,



enquanto setores intensivos em mão de obra podem sofrer maior pressão sobre resultados.

Os argumentos favoráveis à redução da jornada Apesar da resistência de parte do setor empresarial, especialistas em relações do trabalho, pesquisadores e entidades sindicais sustentam que a redução da jornada pode produzir efeitos positivos para a economia no médio e longo prazo. O principal argumento é que produtividade não está necessariamente associada ao número de horas trabalhadas, mas à eficiência com que o trabalho é realizado. Experiências conduzidas em países como Reino Unido, Islândia e Espanha ganharam destaque nos últimos anos ao indicar que jornadas menores podem manter ou até ampliar a produtividade em determinados setores.

Os estudos também apontaram redução de índices de estresse, afastamentos por problemas de saúde mental e rotatividade de funcionários. Os defensores da proposta afirmam que a mudança pode incentivar empresas a revisar processos internos, acelerar investimentos em tecnologia e eliminar ineficiências operacionais historicamente presentes em diversos segmentos da economia. Nesse cenário, a necessidade de produzir mais em menos tempo funcionaria como um catalisador para a modernização da gestão empresarial.

Outro ponto frequentemente citado é a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores. Segundo essa visão, jornadas mais equilibradas tendem a aumentar o engajamento, reduzir o absenteísmo e fortalecer a retenção de talentos, fatores que também possuem impacto econômico relevante para as organizações. Além disso, apoiadores da PEC argumentam que o Brasil permanece entre os países com jornadas de trabalho relativamente extensas quando comparado a economias desenvolvidas.

Para esse grupo, a discussão representa uma oportunidade para atualizar as relações de trabalho e alinhar o País a tendências globais que buscam conciliar competitividade econômica e bem-estar social. Produtividade no centro do debate A disputa em torno da PEC tornou-se, assim, um embate entre duas visões distintas de desenvolvimento econômico. De um lado, empresários e investidores alertam para os riscos de aumento de custos, pressão inflacionária, redução de investimentos e possíveis impactos sobre o emprego formal.

De outro, defensores da proposta enxergam na redução da jornada uma oportunidade de impulsionar ganhos de eficiência, modernização empresarial e melhoria das condições de trabalho. Independentemente do resultado da votação, o debate já produziu um efeito concreto: colocou a produtividade no centro das discussões sobre o futuro do mercado de trabalho brasileiro. A questão que permanecerá em aberto é se a economia nacional conseguirá transformar uma eventual redução da jornada em ganhos de eficiência capazes de compensar os custos adicionais apontados pelo setor produtivo.

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