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Economia
Eleições de 2026 ganham peso nas projeções econômicas, diz Deutsche Bank
Banco vê crescimento sustentado pelo consumo, mas alerta para deterioração fiscal, inflação pressionada e incertezas políticas
Por Hugo Cilo
Compartilhe Publicado em: 03/06/2026 às 06:06
Última atualização: 07/06/2026 às 22:20
Imagens: Foto ilustrativa editada com IA
Capital da economia: banco destaca que o País se mantém resiliente, mas convive com inflação por razões fiscais
As eleições presidenciais de 2026 passaram a ocupar papel central nas projeções econômicas para o Brasil. Em relatório divulgado nesta semana, o Deutsche Bank avalia que o desempenho da economia nos próximos anos dependerá cada vez mais do ambiente político e da capacidade do próximo governo de enfrentar desafios estruturais, especialmente na área fiscal. O documento destaca que o País mantém um ritmo de crescimento resiliente, mas convive com inflação acima da meta, trajetória preocupante da dívida pública e um cenário eleitoral ainda indefinido.
O banco projeta expansão de 1,9% para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2026 e de 1,7% em 2027. A avaliação é que a atividade econômica continua sendo sustentada pelo consumo das famílias, favorecido pelo mercado de trabalho aquecido, programas de estímulo e condições de crédito que permanecem relativamente favoráveis mesmo em um ambiente de juros elevados.
O desempenho da economia brasileira continua superior ao de algumas das principais economias da região. Enquanto o Deutsche Bank projeta crescimento de 1,9% para o Brasil neste ano, a estimativa para o México é de apenas 1,2%, reflexo da desaceleração observada no início de 2026.
A principal novidade do relatório é a crescente preocupação com a sucessão presidencial. Os analistas observam que o cenário político permanece aberto e que a disputa eleitoral deverá influenciar diretamente as expectativas de crescimento, investimento e política econômica.
Segundo o documento, o senador Flávio Bolsonaro consolidou-se como principal nome da oposição, embora governadores como Ronaldo Caiado e Romeu Zema ainda busquem ampliar espaço entre eleitores de centro. O banco ressalta que a recente investigação envolvendo pessoas ligadas ao Banco Master reduziu parte da vantagem que Flávio havia conquistado sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em cenários de segundo turno.
Na avaliação do Deutsche Bank, ainda é cedo para projeções eleitorais definitivas, mas o resultado da disputa poderá determinar o rumo de reformas econômicas consideradas essenciais para estabilizar as contas públicas e melhorar o potencial de crescimento do País.
Mercado de trabalho segue como principal motor Apesar da desaceleração observada em março, quando a atividade econômica recuou 0,7% na comparação mensal com ajuste sazonal, o banco considera que a economia brasileira mantém dinamismo relevante. O setor de serviços continua liderando a expansão e o consumo privado voltou a ganhar força após o enfraquecimento registrado no segundo semestre de 2025.
O mercado de trabalho permanece como um dos principais pilares da atividade. A taxa de desemprego alcançou 5,8% em abril, o menor nível para o mês desde 2012. Os setores de comércio e serviços seguem liderando a geração de vagas, contribuindo para sustentar o consumo das famílias.
Os analistas destacam ainda que a expansão do crédito continua mais forte do que seria esperado em um ambiente de juros elevados, evidenciando os efeitos de programas governamentais voltados ao financiamento e ao alívio do endividamento das famílias.
Inflação pressionada pelo petróleo O cenário inflacionário continua desafiador. A inflação oficial atingiu 4,39% em abril, impulsionada principalmente pelo aumento dos combustíveis em meio às tensões geopolíticas envolvendo o Irã e o Oriente Médio. Para maio, o Deutsche Bank estima que o índice acumulado em 12 meses tenha avançado para 4,68%.
Os impactos dos preços de energia também vêm se espalhando para outros segmentos da economia. O relatório aponta que alimentos e transportes, duas das categorias com maior peso no IPCA, continuam registrando aceleração dos preços.
Mesmo diante desse cenário, o banco acredita que ainda existe espaço para novos cortes de juros. A expectativa é que o Banco Central reduza a taxa Selic gradualmente ao longo do ano, encerrando 2026 em 12,75%. O movimento, porém, dependerá da evolução das expectativas inflacionárias, da situação fiscal e dos desdobramentos do cenário internacional.
Contas públicas como maior vulnerabilidade Se a atividade econômica apresenta relativa resiliência, a situação fiscal continua sendo o principal foco de preocupação do Deutsche Bank.
O relatório classifica a questão fiscal como o “calcanhar de Aquiles” da economia brasileira e alerta que o déficit total permanece próximo de 8% do PIB. Segundo os analistas, o atual desenho das contas públicas não é compatível com a estabilização da dívida. Sem reformas adicionais, incluindo mudanças nas despesas obrigatórias e uma nova reforma previdenciária, a relação dívida/PIB poderá superar 90% nos próximos anos.
Nos 12 meses encerrados em abril, o déficit primário acumulado alcançou R$ 118,2 bilhões, equivalente a 0,9% do PIB. O banco estima que a dívida pública continuará crescendo cerca de três pontos percentuais do PIB por ano.
Além dos desafios estruturais, os analistas alertam para o risco de aumento de gastos associado ao calendário eleitoral.
Medidas destinadas a reforçar a popularidade do governo ou melhorar as perspectivas eleitorais de grupos políticos podem ampliar as pressões sobre o orçamento público.
Setor externo oferece algum alívio Em contraste com o quadro fiscal, as contas externas apresentam sinais mais favoráveis. O aumento das exportações de petróleo e a melhora dos termos de troca vêm ajudando a reduzir parte das pressões sobre o balanço de pagamentos.
O Deutsche Bank observa que o Brasil tem se beneficiado da alta dos preços internacionais da energia por ser exportador líquido de petróleo. O fluxo de investimento estrangeiro direto permanece relativamente estável e as reservas internacionais alcançaram US$ 366,9 bilhões em abril, reforçando a posição externa do País.
Ainda assim, os analistas alertam que uma desaceleração mais robusto da economia global ou um aumento da aversão ao risco nos mercados internacionais pode limitar os benefícios trazidos pelo atual ciclo de commodities.
Brasil cresce, mas enfrenta teste político e fiscal A leitura geral do Deutsche Bank é que o Brasil entra na segunda metade de 2026 em uma posição relativamente confortável em termos de atividade econômica e mercado de trabalho, mas cercado por riscos relevantes. A combinação entre inflação resistente, deterioração fiscal e incerteza eleitoral tende a definir o comportamento dos investidores e o desempenho da economia nos próximos anos.
Para o banco, o crescimento continua apoiado pelo consumo e pelo mercado de trabalho, mas a sustentabilidade desse ciclo dependerá da capacidade do País de avançar em ajustes fiscais e oferecer maior previsibilidade política após a eleição presidencial.
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