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Economia

Brasil supera Rússia e vira maior comprador de carros chineses do mundo

Avanço dos eletrificados, antecipação de compras antes da alta tarifária e estratégia exportadora da China impulsionam fluxo de veículos

Por Hugo Cilo

Compartilhe Publicado em: 28/07/2026 às 23:22

Última atualização: 29/07/2026 às 21:16

Imagens: Hugo Cilo/Brazil Economy A BYD, com fábrica na Bahia, vendeu 175 mil automóveis num único mês O Brasil alcançou em 2026 uma posição inédita no comércio automotivo mundial ao se tornar o principal destino dos carros exportados pela China. Entre janeiro e maio, as compras brasileiras de veículos chineses, incluindo modelos convencionais e eletrificados, somaram US$ 5,2 bilhões, à frente de mercados como Rússia, com US$ 5 bilhões, e Bélgica, com US$ 3,8 bilhões.

O avanço foi acelerado. Dados da alfândega chinesa mostram que, no mesmo intervalo de 2025, o Brasil havia importado US$ 2,1 bilhões em automóveis do país asiático e aparecia apenas na sexta colocação entre seus maiores compradores. Em um ano, portanto, o valor cresceu 146,9%.

Os veículos eletrificados estão no centro desse movimento. De janeiro a maio, as importações brasileiras dessa categoria chegaram a US$ 4,5 bilhões. Somente em abril e maio foram US$ 2,7 bilhões.

Com esse desempenho, o país também passou à primeira posição entre os compradores de automóveis eletrificados chineses, superando Bélgica, com US$ 3,8 bilhões, e Reino Unido, com US$ 3,4 bilhões. A mudança ganha dimensão quando observada em perspectiva: elétricos e híbridos representavam 33% das importações brasileiras de veículos chineses em 2021 e chegaram a 87% em 2025.

Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), organizados pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), reforçam essa tendência. No primeiro semestre deste ano, as compras brasileiras de veículos chineses atingiram US$ 5,35 bilhões, mais que o dobro do valor de todas as importações brasileiras provenientes da França, de US$ 2,6 bilhões.

Os híbridos plug-in responderam pela maior parcela, com US$ 2,79 bilhões. No conjunto, os veículos eletrificados representaram aproximadamente 15% de tudo o que o Brasil importou da China durante o período.

Corrida tarifária Parte da disparada está relacionada à antecipação das importações antes do aumento das alíquotas brasileiras. Segundo Tulio Cariello, diretor de conteúdo e pesquisa do CEBC, as tarifas, que variavam entre 25% e 30%, dependendo da categoria, passaram a 35%.

“Houve intensificação das importações para escapar da tarifa. A partir de agora, deve ocorrer alguma acomodação, à medida em que as vendas no mercado doméstico sejam atendidas pelo estoque formado”, disse.

Para Cariello, porém,



a mudança tributária não deve interromper a expansão das marcas chinesas no país, diante da demanda existente entre os consumidores.

“Por outro lado, não acredito que haverá queda resistente, uma vez que há interesse alto do brasileiro, inclusive das classes média e média alta. O carro elétrico virou um desejo de consumo, e carro elétrico se tornou sinônimo de carro chinês.”

Os números do mercado doméstico ajudam a dimensionar essa transformação. Entre janeiro e junho, foram comercializados 215.023 veículos eletrificados leves no Brasil, crescimento de 125% diante das 95.493 unidades do mesmo intervalo do ano anterior, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).

A expansão ocorre em velocidade significativamente superior à do mercado automotivo como um todo, que avançou 19,4% no período, de acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Em junho, os eletrificados chegaram a 18% das vendas domésticas, ante 7,7% um ano antes.

Dados da Anfavea também mostram que os emplacamentos de carros elétricos passaram de 31 mil no primeiro semestre de 2025 para 91 mil no mesmo período deste ano, avanço de 193%. Nos híbridos plug-in, a alta foi de 90%, enquanto os híbridos convencionais cresceram 81%.

Ofensiva chinesa A expansão brasileira ocorre paralelamente a uma estratégia mais agressiva das fabricantes chinesas nos mercados internacionais. Fabiana D’Atri, economista da Bradesco Asset Management (Bram), afirma que o aumento das importações também deve ser analisado diante do esforço da China para ampliar suas exportações em um cenário de menor dinamismo interno.

“A demanda doméstica caiu bastante. Os dados do segundo trimestre mostram esse descompasso do mercado doméstico crescendo em ritmo bem mais moderado que as exportações. O setor externo complementa o doméstico”, disse.

O Produto Interno Bruto (PIB) chinês cresceu 4,3% no segundo trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior, abaixo das expectativas de analistas. O resultado aumentou as dúvidas sobre a capacidade de Pequim de alcançar sua meta de expansão econômica de 4,5% a 5% neste ano.

Enquanto o consumo doméstico perdeu força, as vendas externas aceleraram. As exportações chinesas cresceram 27% em junho na comparação anual, acima da projeção de 18%. No setor automotivo, a expansão chegou a 71,2%, para 1,06 milhão de veículos.

A BYD, uma das principais representantes dessa ofensiva internacional, teria destinado 175 mil automóveis ao exterior no mês, crescimento de 95%. As vendas internacionais corresponderam a 43% da produção da companhia.

D’Atri considera que a competitividade tecnológica dos veículos eletrificados chineses também favorece uma transformação estrutural nos mercados onde esses produtos conquistam consumidores.

“Para o Brasil e outros mercados, à medida que produtos são testados e aprovados pela população, vira uma situação de quanto mais tem, mais tem, mais vai ter.



Neste sentido, não vejo freada na entrada de veículos chineses, é uma mudança estrutural. Pode haver queda com a nacionalização da produção, mas sabemos que este é um processo lento”, completou D’Atri.

Produção local A expansão das importações ocorre ao mesmo tempo em que fabricantes chinesas começam a estruturar operações industriais no Brasil. Pelo menos oito marcas já produzem ou anunciaram planos de fabricação no país, por meio de unidades próprias ou de acordos com empresas instaladas no mercado nacional.

A China, entretanto, possui mais de uma centena de fabricantes de veículos, o que significa que a produção brasileira não necessariamente será uma alternativa para todas as companhias interessadas no mercado local.

“Alguns produtos, mesmo com as novas tarifas, manterão preços vantajosos e qualidade que não se encontra aqui, ainda que o preço fique menos convidativo. O consumidor pode optar por pagar a mais pelo pacote, e as fabricantes também podem oferecer desconto para se manter competitivas no mercado”, afirmou D’Atri.

Desde o início de julho, elétricos e híbridos estão sujeitos à tarifa de importação de 35%. Paralelamente, foi estabelecida uma nova cota de US$ 463 milhões com alíquota zero para veículos semimontados (SKD) ou desmontados (CKD).

A medida provocou reação da Anfavea, mas, segundo João Carmo, da 4intelligence, está alinhada à estratégia do governo federal de criar condições para que fabricantes chinesas façam a transição das importações para a produção nacional.

“Era algo esperado e uma via de mão dupla. O governo mantém aberta uma porta – pequena – para a importação como forma de dar mais tempo para as chinesas se estabelecerem no país e, futuramente, trazer sua produção para cá”, disse o economista.

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